Início História Até tu, Brutus? Mitos e Verdades da frase de Júlio César

Até tu, Brutus? Mitos e Verdades da frase de Júlio César

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Dia 15 de Março de 44 a.C., Julio César teria pronunciado as suas últimas palavras, antes de cair morto no chão: “Tu quoque, Brute, fili mi”

Um grupo de senadores havia assassinado César com 23 punhaladas. O Cesaricídio aconteceu na Curia de Pompeo, hoje localizada no largo Argentina, centro de Roma.

O local era uma sede provisória uma vez que a Cúria de César, que se encontra ainda hoje no Fórum Romano estava em obras.

César tinha 55 anos, estava no seu terceiro casamento e sua esposa se chamava Calpúrnia.

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Oficialmente César não tinha filhos, uma vez que Júlia, sua filha única, tinha falecido por complicações no parto.

Porém, existiam pelo menos duas pessoas que poderiam ser seus filhos ilegítimos: Tolomeu Cesarion, filho de sua amante Cleópatra, e Marco Júnio Brutus. Sim, o famoso Brutus da frase, “Até tu, Brutus”, era filho de Servilia, que por décadas foi amante de César.

O dia da morte de César

Tudo o que sabemos sobre essa fatídica data nos é contado em muitos livros. O dia do assassinato de César ficou marcado na história como Os idos de Março e sabe-se que houve uma série de sonhos e premonições a cerca de algo trágico.

César não dormiu na noite anterior, sua esposa Calpúrnia teve vários pesadelos e o implorou para que não saísse de casa para ir ao Senado.

Por fim, as premonições do advinho Espurina, dizendo que César deveria ter cuidado com algo nefasto no mês de Março, e que deveria prestar atenção entre as Calendas de Março (primeiro dia do mês) e os Idos de Março (a metade do mês).

O que aconteceu c om César é sabido por todos: a primeira punhalada foi dada por Públio Servílio Casca, seguida por outros conjurados, por um total de vinte e três golpes de facas e punhais.

Todos nós, independente do quanto saibamos da história de Roma, conhecemos e usamos a famosa frase “Até tu, Brutus”, quando alguém “vira a casaca” ou não se comporta conosco de modo correto.

Rosto de Júlio César, Museus do Vaticano

“Até Tu, Brutus” e a versão de Suetônio, pronunciada em grego

Suetônio é uma das fontes históricas mais pesquisadas, porque viveu entre o 1 e o 2º séc. d.C.

Como escritor e membro da corte imperial, com certeza Suetônio tinha acesso a fontes, documentos e a personagens importantes.

No seu compêndio intitulado A Vida dos Césares (Vita Caesarum) ele faz um longo relato dos fatos da morte de César. Diz que o mesmo, após as vinte e três punhaladas, cobriu o corpo ensanguentado com a sua toga e que só deu um gemido de dor.

Contudo, Suetônio acrescenta que “alguns” (mas não se sabe exatamente quem) afirmavam que César, ao ver Brutus pronto a esfaqueá-lo, teria dito em grego: Kài sù, tèknon?, ou seja, “Até você, filho?”

Brutus, Michelangelo (1538), Museu Nacional do Bargello, Florença

A versão de Plutarco, sem a famosa frase “Até tu, Brutus”.

Além de Suetônio, outra fonte famosa quanto aos fatos do mundo antigo é o historiador grego Plutarco, que nasceu 100 anos após a morte de César.

Plutarco, ao narrar o Cesaricídio, dizia que ao ver que Brutus fazia parte do grupo dos conspiradores, César preferiu cobrir o rosto com a sua toga e se deixar ferir, morrendo lentamente.

Portanto, não há nenhuma citação da famosa frase.

O historiador Cassio Dione e a versão teatral de Shakespeare

Pode parecer incrível, mas a versão mais famosa da citação (seja ela verdadeira ou não), que chegou até nós, é graças ao teatro shakesperiano.

Muitas das citações de Shakespeare caíram na boca do povo. Na sua peça teatral Júlio César (original: The Tragedies of Julius Caesar), escrita provavelmente em 1599, o epílogo da vida de César se dá com a famosa frase, recitada em latino: “Et tu, Brute?”  (Até tu, Brutus?)

Shakespeare teve como fonte bibliográfica o também famosíssimo historiador Cássio Dione, que à diferença de Suetônio, carregou ainda mais de drama a frase final: “Tu quoque, Brute, fili mi!” (Até tu, Brutus, meu filho!)

Brutus era filho ilegítimo de César?

Não existia uma relação de parentela entre Brutus e César, e podemos pensar que nada impediria a um homem poderoso, de assumir uma paternidade publicamente, mesmo sendo fruto de uma relação extraconjugal.

Servilia, a mãe de Brutus, era uma mulher de origem nobre e com muitas alianças políticas. Mas como sabemos, ela era “amante histórica” de Júlio César.

O affair entre os dois era sabido e conhecido por toda a sociedade romana, por isso existia uma possibilidade real que Brutus fosse um filho ilegítimo do grande general.

É claro que, diante dessa possibilidade, se construíram muitas teorias, inclusive a que Brutus tinha ressentimento por nunca ter sido assumido por seu pai.

E se a frase “Até tu, Brutus” se referisse a um outro Brutus…

Brutus era um nome razoavelmente popular em Roma. Na época, a sociedade romana ainda não tinha sido invadida por “nomes estrangeiros”, o que vai acontecer depois que Roma conquistar o mundo e se ver diante de costumes, culturas e nomes advindos de outros povos.

No que toca ao Cesaricídio e à famosa frase, muitos historiadores trabalham em cima de outra teoria: que Júlio César se referisse a outro Bruto, ou seja, o parente distante (eram primos de quarto ou quinto grau) e herdeiro testamentário Décimo Júnio Bruto Albino.

Ruínas do Largo Argentina, lugar onde aconteceu o assassinato de César.

Décimo era um general e político romano, vinte anos mais jovem do que César. Na manhã do assassinato, devido à uma série de fatores (premonições, pesadelos, e inclusive há quem afirme que César tivera um ataque epilético na noite do dia 14), o grande ditador de Roma havia decidido que ficaria em casa e mandaria adiar a plenária no Senado.

A grande questão é que dali a 3 dias César partiria para a Pérsia com o objetivo de invadir e dominar a região, e ficaria meses, talvez anos fora de casa. Por isso seus assassinados tinham pressa em cometer o crime e se livrar logo do problema.

Quando César mandou avisar que não compareceria ao Senado, Décimo Bruto, foi até a sua casa, convencê-lo a cumprir seus deveres públicos.

E que também não ficaria bem para a sua imagem, se viessem a saber que César não foi ao Senado por medo de premonições e superstições.

Após muito insistir, Décimo Bruto convenceu César a sair de casa e sabemos o que aconteceu.

Ademais, ao entrarem no Senado, Bruto arrumou um modo de impedir que Marco Antônio entrasse junto com César. A presença de Antônio impediria muito provavelmente o assassinato.

Portanto, Décimo foi um elemento fundamental para que o assassinato de César fosse cumprido.

Décimo Bruto era um dos herdeiros, apesar de não ser o principal, no testamento político de César.

Talvez fosse esse o motivo pelo qual, no momento que César o viu entre aqueles que o apunhalaram, tenha ficado talmente surpreso e chocado, e a esse ponto proferido a famosa e conhecida frase “Até tu, Brutus?”.

Bibliografia sobre a morte de César

As principais fontes antigas que nos narram o assassinato de César são:

Suetônio, A Vida dos 12 Césares.

Plutarco, Alexandre e César. Vidas Comparadas.

Cássio Dione. História Romana, Volume XXXVI.

Pessoalmente, gosto muito dos três livros a seguir:

Barry Strauss, A morte de César: Roma antiga e o assasinato mais famoso da história. O autor é professor de História Antiga e Mundo Clássico da Cornell University, no Reino Unido, e publicou vários livros muito interessantes. Sua narração é cronológica, iniciando com o retorno de Cèsar a Roma, após a vistória na Gália e na Hispania.

Alberto Angela, Cleopatra: a rainha que desafiou a eternidade. Alberto Angela é um autor muito famoso de romances históricos. Nesse livro ele narra o affair entre César e Cleópatra, sendo ela a protagonista da história. Grande parte da primeira parte do romance é dedicado ao en contro e romance entre os personagens, o plano do assassinato, a morte de César, o funeral, o retorno da rainha ao Egito.

William Shakespeare, Julius Caesar. Para quem gosta de um bom drama, com diálogos intrigantes e apaixonantes, essa é uma ótima leitura.

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Luciana Rodrigues
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