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Gladiadores: Sangue e Arena no Mundo Romano Antigo

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Os gladiadores eram os “esportistas” mais famosos da Roma Antiga, e até hoje discute-se sobre esse tipo cruel de modalidade atlética mortal.

A fama desses lutadores cresceu a partir do momento em que na capital do império romano, isto é, em Roma, foi construída a maior arena de espetáculos com gladiadores: o anfiteatro Flávio, popularmente conhecido como Coliseu.

Há muitas perguntas sobre a origem da luta de gladiadores. Algumas ainda permanecem sem respostas assertivas e são objetivos de muitos debates e pesquisas.

Onde, como, quando e porquê surgiram os gladiadores? O objetivo das lutas era puro entretenimento? Os gladiadores eram escravos ou recebiam uma recompensa?

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Origem da luta de gladiadores

Apesar de não termos absoluta certeza de quando surgiram as lutas de gladiadores, há alguns indícios.

No mundo dos etruscos, uma evoluída civilização pré-romana (que foi dominada pelos romanos e, consequentemente se amalgamou à cultura romana), era muito popular patrocinar lutas de prisioneiros ou escravos. A luta só terminava com a morte de um ou de ambos os lutadores.

O mundo etrusco, por sua vez, teve uma grande influência do mundo grego. Sabemos que na Ilíada de Homero, o herói Aquiles tinha organizado jogos com competições e lutas entre atletas para celebrar o funeral de Patroclo.

Por isso, acredita-se que as influências dos jogos e de lutas de gladiadores possa ter chegado à península itálica diretamente por influência grega (uma vez que os gregos colonizaram o sul da Itália), e/ou transversalmente, por meio dos etruscos.

Essas lutas aconteciam nos seguintes contextos: para executar sentenças de morte contra os prisioneiros, para celebrar alguma solenidade religiosa (luta ritual) ou durante funerais. Em todos esses casos, a população de uma cidade, vilarejo, etc. esperava pelo “momento especial” da celebração, ou seja, a luta.

Como esses eventos, os quais inicialmente eram ligados a uma celebração ou ritual, atraíam sempre uma grande quantidade de público, a um certo ponto lutas evoluíram para um espetáculo autônomo, sem a necessidade de encerrar uma cerimônia ou ritual.

gladiadores de roma
Mosaico do gladiador. Galleria Borghese, Roma.

Alguns dados históricos específicos sobre as lutas de gladiadores:

Historicamente o primeiro testemunho oficial de lutas de gladiadores no mundo romano antigo aconteceu em 264 a.C., ano do início da primeira guerra púnica.

O funeral do cônsul Décimo Júnio Pera foi celebrado com uma luta de gladiadores, em Roma, no Forum Boário (nas proximidades da Bocca della Verità).

Sabemos que durante a época tardo-republicana já existiam leis que regulavam as lutas de gladiadores, sobretudo no quesito ligado à violência nas arenas.

Também é fato conhecido que, Júlio César organizou jogos gladiatórios imponentes em pelo menos três ocasiões: para celebrar a memória do seu pai, e seus triunfos após as vitórias na Gália e conquista do Egito.

Os historiadores Tácito e Tito Livio narram sobre os jogos gladiatórios organizados por Scipione l’Africano após suas vitórias na guerra púnica.

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A origem do nome gladiador e os vários tipos de gladiadores

Existiam vários tipos de gladiadores, com especialidades de ataque e defesa diferentes, o que fazia com que eles usassem tipos de armas e acessórios distintos.

A origem do nome gladiador parece ser pelo fato que uma das armas mais corriqueiras a serem usadas nas lutas era uma espada curta e com a ponta curva. O nome dessa espada era gladio.

O gladio era uma arma de guerra originária da Espanha, e que foi adotada pelos soldados romanos pela praticidade. Dos campos de batalha, a arma foi adotada nos espetáculos.

Foto de um gladio romano

Quanto à classificação dos gladiadores, sobretudo em época republicana, os nomes quase sempre eram designados conforme a nacionalidade/origem dos homens escravizados, os quais, uma vez que eram prisioneiros de Roma, eram obrigados a lutarem nas arenas. Ex.: Trácio, Sanita, Dácio, Gaulês, etc.

Com o advento do império romano, o imperador Augusto aumentou o controle do Estado sobre esse tipo de luta, e reformou as classes de gladiadores.

Com a reforma, pelo menos no território da península itálica, as principais categorias de gladiadores eram: retiarius, mirmillone, trace, secutor, scissor, essedarius e provocator.

Isso não excluía que existissem outros tipos de lutadores, mas pelo menos as classes aqui mencionadas eram as mais populares.

Outro fator importante é que, como muitas nações “inimigas” foram englobadas no império romano, e por motivo de diplomacia, passou-se a evitar a identificar os gladiadores com os nomes das antigas nações conquistadas.

O gladiador trace usava uma espada curva e curta chamada sica, e um escudo muito pequeno, de forma redonda ou quadrada. Também usava uma proteção embutida para pelo menos um dos braços e proteções para as pernas.

Trace

O gladiador mirmillone usava um elmo com um adereço que era semelhante a uma cresta do peixe mirmillone. Usava uma espada curta e um escudo, além de proteções embutidas para os braços e as pernas.

gladiadores tipo mirmillone
Mirmillone

O retiarium, como indica o nome, usava uma rede com uma das suas principais armas, unida a um tridente. Seu objetivo era lançar a rede e imobilizar o adversário, e depois feri-lo mortalmente com o tridente.

Retiarium

Venator era um gladiador especializado nas “venationes” ou seja, lutas contra animais ferozes. Além do uso de chicotes e escudos, uma das principais armas usadas pelo venator eram as lanças para ferir mortalmente os animais.

gladiadores tipo venator
Venator

Escolas de gladiadores: os locais para o adestramento

Em todas as áreas do império romano existiam escolas de gladiadores. Em Roma, as escolas mais famosas ficavam a poucos metros do Coliseu, e hoje em dia ainda é possível ver algumas ruínas do Ludus Magnus.

O Ludus Magnus era a maior escola de treinamento de gladiadores e foi construída à época do imperador Domiciano (81-96 d.C.)

Na península itálica, as escolas mais famosas de treinamento ficavam no sul da Itália, na cidade de Cápua, onde existiu um dos anfiteatros mais famosos da antiguidade. Um verdadeiro rival do Coliseu!

Os agentes/empresários das escolas de gladiadores estavam sempre em busca de novos talentos para suprir uma demanda cada vez maior.

Os gladiadores eram escravos ou homens livres? Tanto uma coisa quanto outra!

Como muitos dos gladiadores, pelo menos no início, eram escravos, criminosos ou prisioneiros de guerra, podemos afirmar com certeza que as escolas de gladiadores eram verdadeiras prisões. Os gladiadores em treinamento dormiam em pequenas celas e eram acorrentados.

Às vezes, homens livres endividadas, terminavam por “venderem” seus serviços como gladiadores em troca do penho. Havia também homens livres atraídos pela enorme fama. E houve inclusive imperadores que treinavam e lutavam com/como gladiadores. Dois deles foram Nero e Comodus.

A alimentação e os cuidados médicos eram de ótima qualidade, porque formar um campeão era caro e demorado. Em média um gladiador de sucesso passava por três anos de treinamento intensivo.

Ruínas parciais do Ludus Magnus. Ao fundo, o Coliseu.

Como eram orquestradas as lutas de gladiadores?

Um gladiador não poderia jamais fazer corpo mole. Aqueles que não se dedicavam de maneira profissional, eram castigados, açoitados e queimados com ferro quente pelos seus donos/empresários, que se chamavam lanistas.

Geralmente combatiam diante de muitos espectadores. Estima-se que no Coliseu, nos dias de lotação máxima, o número de espectadores poderia chegar a 70.000, há quem estime inclusive 80.000 pessoas.

Apesar das ameaças e torturas, houve casos de gladiadores de recusaram-se a combater, alguns inclusive preferindo a morte. Em 401 D.C., um grupo de gladiadores de origem germânica preferiram enforcar-se nas suas celas, do que participar a uma luta no Coliseu.

Na arena existiam árbritos, geralmente eram três. Podemos comparar com futebol moderno, no qual temos um juiz e dois bandeirinhas.

Quem perdia o jogo, ou de qualquer modo não pudesse mais lutar, poderia pedir a clemência ao adversário, mesmo que essa fosse uma prática rara.

O juiz nesse caso transferia a decisão final ao organizador dos jogos (na maioria das vezes os imperadores), o qual, poderia, por sua vez, fazer apelo ao famoso “vox populi voz dei” (“a voz do povo é a voz de Deus) e deixar a decisão ao público. Essa era uma prática astuta dos políticos para conseguir o consenso do povo.

As recompensas materiais e em dinheiro faziam com que ao longo dos anos alguns gladiadores conseguirem comprar a própria alforria.

Os gladiadores vencedores, sobretudo aqueles que haviam vencido muitas lutas, viravam personagens famosos.

A maioria fazia muito sucesso com as mulheres e, inclusive, havia mulheres da aristrocracia que eram amantes de gladiadores.

Afresco dos gladiadores em combate. Pompeia, Itália.

Spartacus: o gladiador mais famoso de Roma

Muitos se perguntam quem foi o gladiador mais famoso do império romano.

Quando falamos de gladiadores famosos, um nome vem imediatamente à nossa mente: o de Spartacus. Mas Spartacus viveu algumas décadas antes do nascimento do império romano. Aquela época ainda era a República o sistema a governar Roma.

Spartacus tinha nascido na Trácia (atual Bulgária), foi um soldado romano, e por ter desertado, foi feito prisioneiro. Ao virar um prisioneiro, foi treinado e forçado a se transformar em um gladiador.

Junto com um grupo de companheiros, rebelou-se contra as suas condições de vida e guiou uma rebelião de escravos e de gladiadores na cidade de Cápua. Ali ficava a principal escola de treinamento de gladiadores e um dos principais anfiteatros da península itálica.

Spartacus e seus seguidores conseguiram vencer quatro exércitos romanos, antes de ser derrotado e morto pelos exércitos dos triunviros Pompeo e Crasso.

Escultura do gladiador rebelde. Museu do Louvre, Paris.

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Luciana Rodrigues
Guia brasileira em Roma e Vaticano. Moradora de Roma há mais de 21 anos. Idealizadora e produtora de conteúdo do Roma Pra Você, para quem quer organizar a sua viagem a Roma em plena autonomia. Seja bem-vindo(a) e prazer em conhecê-lo(a)!

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