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A Crucificação romana: a morte de Spartacus, Cristo e dos santos mártires

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A crucificação era, no mundo romano antigo, uma forma muito usual de pena capital para criminosos, militares desertores, gladiadores, subversivos, escravos e todos aqueles que (exceto raras exceções) não tinham a cidadania romana.

Portanto, a crucificação romana também era uma forma de punição para os estrangeiros que cometessem algum delito.

Mas se esse era um dos métodos mais atrozes de punição, a verdade é que não foram os romanos a inventarem a crucificação. Fontes históricas indicam que a crucificação já era conhecido em outras civilizações antigas.

Provavelmente começou a ser praticada no mundo antigo pelos assírios e pelos babiloneses, e foi também usada pelos persas.

Esse método brutal de castigo e morte chegou ao mediterrâneo (mundo helenístico) por meio do conquistador Alexandre o Grande no 4 séc a.C.

Já os romanos passaram a praticar a crucificação graças aos cartaginenses, no 3 séc a.C., durante as guerras púnicas.

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A crucificação romana: a morte dos “últimos”

A partir do momento que os romanos adotaram a crucificação como método de pena capital, havia a plena consciência de que ela deveria ser aplicada como castigo punitivo, para que o condenado pudesse sofrer o máximo até o momento de morte. E que a população que eventualmente assistia à crucificação temesse o dominador.

No mundo romano antigo, a crucificação era a punição dos “últimos”, ou seja, de todos aqueles que não gozavam do privilégio da cidadania romana.

Inclusive se analisarmos os eventos bíblicos de punição, sabemos que todos os judeus que não tinham cidadania romana foram crucificados (por exemplo: Cristo, Pedro e André), enquanto Paulo de Tarso, por ter reivindicado a cidadania romana e exigido um julgamento, foi morto por meio de decapitação.

Pode parecer um paradoxo, mas por ser uma morte rápida, no mundo romano, “perder a cabeça” era considerada uma morte mais do que digna.

Mas se não foram os romanos a inventar a crucificação, eles “inovaram” nesse método cruel. Muito provavelmente foram eles a introduzirem o corpo pregado na cruz.

Até então, por crucificação entendia um corpo pregado a qualquer base. Antes da evolução à crucificação romana, às vezes o corpo era simplesmente pregado ou amarrado a uma árvore, ou a um qualquer pedaço de madeira.

Muitos, antes de serem pregados na cruz, eram flagelados. O flagelo era um tipo de chicote, formado por várias tiras de couro usadas para açoitar. Era um dos principais instrumentos de tortura usados nas punições romanas.

Livros sobre Roma:

A morte ocorria em média de 6 horas a até 4 dias após a crucificação, e por uma série de fatores: sequelas do açoite, mutilação, hemorragia, desidratação, dor.

Outro fator crucial para a morte por crucificação é o que na medicina se chama choque hipovolêmico, ou seja, a perda de líquidos e sangue faz com que o coração não tenha mais sangue suficiente para bombear para os órgãos vitais.

Isso faz com que antes de morrer, a vítima tenha sede, cansaço, tôntura, forte dor de cabeça, confusão mental, náusea, vômito, sensação de desmaio e também forte falta de ar.

Os soldados romanos que eram vigias da crucificação só podiam deixar o local após a morte da vítima.

Isso fazia com que os mesmos acelerassem a morte dos crucificados com verdadeiros métodos de tortura como: fratura de ossos, feridas de lança (como cita-se na história da conversão de São Longuinho), golpes no peito, e também acendiam uma fogueira fumegante aos pés da cruz para asfixiar a vítima.

Por que deram vinagre a Cristo ao invés de água? Quando os soldados romanos deram vinagre para Cristo beber (E também os soldados o escarneciam, chegando-se a ele, e apresentando-lhe vinagre. Lucas 23:36 ACF), muito provavelmente sabiam que causando vômito, acelerariam o processo de desidratação.

Cristo Morto, Andrea Mantegna, Pinacoteca di Brera (Milão)

A crucificação dos rebeldes e dos santos mártires: Spartacus, Cristo, Pedro e André

Quanto lemos os evangelhos, a nossa interpretação do ponto de vista puramente religioso, é que os cristãos foram crucificados por pregarem a sua fé, sem temor, propagando o reino de Deus, dando-nos a experança da vida eterna.

A cada passo que lemos, a gente já vê os mocinhos e os bandidos da história: de um lado os cristãos e do outro os romanos.

A verdade é que de um ponto de vista puramente histórico, alguns dos personagens “famosos” crucificados, eram simplesmente considerados rebeldes, subversivos e colocavam a hegemonia do império romano em perigo.

Do ponto de vista dos romanos, Cristo ao pregar a paz, a aliança, a fraternidade e a igualdade, colocava em perigo alguns dos pilares do império romano: dividir para governar, e também uma das fontes mais lucrativas da época: a escravidão.

Como justificar a escravidão diante da paz, do amor e da igualdade? Como justificar as guerras e o domínio de um povo em detrimento do outro, com a mensagem de paz dos evangelhos? Como explicar as hierarquias políticas, os impostos cobrados pelos romanos aos povos dominados, ou ainda, a pilhagem de ouro, pratas, pedras preciosas e gêneros alimentícios? Tudo o que os romanos mais temiam era a paz de Cristo!

Portanto, Cristo, Pedro e André, ou seja, o mestre e seus discípulos, do ponto de vista unicamente histórico, foram crucificados pelos romanos, para evitar um levante político que colocasse o império romano em discussão.

Outra morte “famosa” por crucificação aconteceu na Itália, em 71 a.C. Quando Spartacus, soldado desertor, transformado em escravo e, por conseguinte em gladiador, resolveu guiar uma verdadeira inssurreição.

Segundo historiadores como Plutarco, Apiano e Cícero, o rebelde Spartacus tinha fugido do Anfiteatro de Capua, devido às terríveis condições de vida reservada aos gladiadores. Fugiu levando consigo um grupo de gladiadores, pouco a pouco outros escravos, desertores, rebeldes, o populacho, enfim, se unem a essa rebelião contra a república romana.

Após anos de batalhas, o exército de Spartacus foi derrotado e milhares de rebeldes foram crucificados ao longo da Via Ápia.

Crucificação de São Pedro, Caravaggio, Basílica de Santa Maria del Popolo (Roma)

Constantino o Grande: o fim das crucificações no império romano

Se é verdade que a maioria de nós conhece a crucificação a causa do evangelho, e sobretudo pela narração da cruficicação de Cristo, a verdade é que foi o cristianismo a salvar o mundo antigo das crucificações.

No 4 século d.C., mais especificamente no ano 313, o imperador romano Constantino o Grande assinou um decreto: o Édito de Milão, também conhecido como Édito de Constantino ou Édito de tolerância religiosa.

Essa lei proibia, a partir de então, que os cristão fossem perseguidos, presos e mortos a causa da sua profissão de fé. Também seria possível reunir-se livremente para adorar a Deus.

Com isso, um dos principais modos de castigar os cristãos, ou seja, a cruficação romana, passou a ser proibida em toda a extensão do império romano, tanto no ocidente quanto no oriente.

Mosaico de Constantino, Santa Sofia, Istambul.

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Luciana Rodrigues
Guia brasileira em Roma e Vaticano. Moradora de Roma há mais de 21 anos. Idealizadora e produtora de conteúdo do Roma Pra Você, para quem quer organizar a sua viagem a Roma em plena autonomia. Seja bem-vindo(a) e prazer em conhecê-lo(a)!

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